keeping track

Há dias não dou notícias do meu viveiro de plantas, mas estou postando pra "dar explicações". Paciência de monge budista japonês é necessária ao lidar com elas...
Quanto às paperwhites (Narcissus tazetta), essas deram uma folhagem muito bonita, mas nada de flores, como eu já esperava. Certamente não tiveram uma boa temporada no ano passado, quando deviam ter armazenado a energia para a floração desse ano. Mas nesse ano sim, terra boa, adubo e sol são o Toddynho delas. Agora paciência de um ano até o fim do próximo inverno.

Paperwhite, vão ter que esperar mais um ano...
Das sementes que importei por correio, a Larix decidua já germinou (bem, duas, por enquanto). Ficaram um mês na geladeira pra simular um inverno (assim como estão ainda várias sementes...). Vai ser curioso como essa planta vai se adaptar no verão subtropical, sendo que ela vem das montanhas da Europa. Tem gente que cultiva ela no sul da Austrália, então uma certa tolerância a calor ela deve ter!

Larix decidua
Tive sucesso na alporquia (leia no wiki) do liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) em questão de 2 meses, o que me surpreendeu positivamente. Agora estou aplicando a técnica ainda no carvalho europeu (Quercus robur) e na glicínia (Wisteria chinensis) pra bonsai em curto tempo. Eu uso um vaso normal de plástico cortado em um dos lados para fazer isso, assim não mexo na terra no momento de retirar o alporque, aumentando as chances da planta sobreviver.

Alporquia de Liquidambar styraciflua
Alporque já pronto do Liquidambar
E os bordos japoneses (Acer palmatum) que plantei de sementes há pouco mais de 4 anos estão saudáveis e até já estão sendo usados no jardim e para bonsai. Sem ter custado o olho da cara como essa espécie costuma custar. Agora vou trabalhar na ramificação e, se estiver saudável, fazer a desfolha daqui a um mês.

Acer palmatum - sim, as folhas parecem Canabis

timelapse

Ando bem entusiasmado ultimamente para vídeos. Minha próxima aquisição em máquina fotográfica com certeza terá bons recursos para isso, bem como modo de disparos com intervalo (interval shooting mode)...
Por enquanto, me viro com a Pentax de bolso e a Nikon D40.
Da viagem de bike pelo Uruguai, trouxe milhares de fotos para time-lapse, e o resultado está em meros 3 minutos, embalados por Chicane.

llegamos!

Dia 10: de Piriápolis a Montevideo, 110km pedalados.
Depois de alguns dias sem postar, continuo o relato da pernada de bike em junho lá no Uruguai.
Na última noite, a chuva incessante deu lugar ao vento. Acordamos cedo pra entrar logo na estrada e chegar em Montevideo antes que nossa visita chegasse por lá.
Seguimos pela beira do mar por um bom trecho, ao invés de voltar direto de Piriápolis para a Ruta Interbalneária. O trecho é muito bonito, com muitas casas bem abastadas de frente ao mar, sem tráfego algum e num ótimo asfalto. Vimos alguns ciclistas, que nos cumprimentavam com muita alegria.
Voltando à Interbalneária, ainda com pouco movimento, acompanhamos um grande grupo de ciclistas por um pequeno trajeto, mas o ritmo deles (com bikes de velocidade, sem peso e com um carro de apoio técnico) era muito grande.
Seguimos muito bem pela estrada, sem vento, mas frio. Paramos pra comer alfajores e tomar café em um posto de gasolina, e foi à base de café e alfajor que chegamos na zona metropolitana de Montevideo. De longe, o aeroporto, planejado pelo uruguaio Rafael Viñoly, muito bonito, e a sensação de que alguém poderia chegar ali em umas 2 horas para aquilo que fizemos em 10 dias é um pouco intrigante.


Acompanhamos a costa do Prata por mais de 10km ao entrar na cidade de Montevideo. Achar o hotel em que tínhamos reserva não foi fácil. Estranho foi ter alguém carregando a bagagem por ti (um pouco suja, diga-se de passagem) pro quarto depois de tantos dias de acampamento... Baita banho. Saímos pra comer um pancho de chorizo. Bem, o resto de dia foi de passear um pouco na cidade, receber nossa convidada Kátia, namorada do Paaschen, comer uma boa pizza no Pizzas del Mondo, tomar uns vinhos do país, uma cerveja Patrícia red ale, e sacar umas fotitas pelo centro... Bem como gente bem normal faz.

street trees

Sendo bem didático sobre arborização urbana, tudo com fotos:

Pingo de ouro (Duranta repens aurea), ninguém merece. Na minha opinião, a planta mais feia que existe. Em topiaria, cresce tão rápido que dá pra podar a cada 2 dias. Ficaria feliz se uma forte geada num inverno desses matasse todas existentes aqui em terras gaúchas.
Quem é que passa nessa calçada, hein?

Sobre como NÃO podar uma árvore: coitado desse jacarandá (Jacaranda mimosifolia).

Absolutamente NUNCA se poda um tronco desse jeito, cortando os galhos horizontalmente a uma certa altura. Essa pobre árvore fica ali, ano após ano tentando se recuperar de uma poda drástica, a custo de que? Prefiro que a cortem no chão que fazer isso com ela. Essa é a poda mais comumente praticada, e cidades inteiras fazem isso deliberadamente pra que a árvore "venha mais bonita", ou pra evitar "sujeira na calçada" (e ainda acham que estão fazendo certo…). Privando-nos, muitas vezes, do espetáculo da coloração outonal como nesses resedás (Lagerstroemia indica)

ou nesses plátanos (Platanus hybrida).

Árvore bonita é árvore NÃO podada, ou no máximo uma poda pra deixar livre a visão abaixo da copa, fazendo seleção dos galhos líderes e eliminando galhos laterais baixos.
Agora, se estiver sob fios de eletrificação, ou que se opte por uma planta de porte menor (como resedá), que dificilmente vai alcançar os fios de luz sem mesmo necessitar de podas; ou que se opte por uma poda do tipo V, deixando galhos crescerem para cada lado dos fios, como nesses álamos (Populus alba). Aliás, não plante álamos na calçada pois eles têm raízes superficiais muito fortes.

Pra essa sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides), antes tarde do que nunca pra começar a poda em V. O coitado do ipê amarelo (Tabebuia alba) em frente não teve a mesma chance.

Enquanto isso, as últimas árvores de bela sombra e de grande porte (Ligustros) da avenida Júlio de Castilhos em Estrela são assassinadas pra construção de um prédio… Ê! E porque não plantar coqueirinho, a espelho da prefeita Carmem da vizinha Lajeado? Quando começarem a cair folhas e coquinhos na cabeça e nos carros dos ilustres cidadãos, já sabemos quem é que vai pro brejo de novo…

mãos na cabeça!

Há muitos anos gosto de lightdrawing, a técnica de desenhar com luz sobre fotografias. Uma coisa que a maior parte da população ainda reage incredulamente, perguntando milhares de vezes como é que isso é possível, ou simplesmente achando que é obra de Photoshop.
Mas não é e, infelizmente, tem que ser feito de noite, claro. O período mais perigoso e, de preferência, em lugares com pouca luz, no meio do nada. Na Europa, tudo bem, ninguém enche o saco, não tem estresse com assaltante nem nada. Já aqui no Brasil a coisa é diferente.
Nas duas vezes que saí aqui em Estrela, cidade pacata do interior, com um amigo pra fazer essas tais fotos, deu até polícia.
A primeira vez, no centro da cidade, foi em noite fria desse inverno. Não chegaram a nos revistar, mas ficaram mega desconfiados, fazendo mil perguntas. Até mesmo onde é que eu morava... Foram embora sem estar convencidos de que só fazíamos fotos.
Agora a segunda vez foi mais tensa. Fomos fotografar em um campo de canola bem próximo à cidade, tanto é que estacionamos o carro em uma rua. Pouco habitada, poucas casas, mas tem até poste de luz. Saindo do carro, a cachorrada latindo, sai um sujeito de uma casa e fica olhando. Bem, que que eu posso fazer. "Boa noite", digo eu. E não obtenho resposta.
Depois de algumas fotos no tal campo, uma luz na nossa cara, e a sentença: "Mãos ao alto!" Puta merda, a primeira coisa que passou pela minha cabeça é que seríamos assaltados. Mas eu, que estava com o tripé e a câmera na mão, não podia colocar todo aparato junto na minha cabeça. O cara ainda ia pensar que era uma arma. Deitei o tripé no chão e o policial continuou berrando, "tu aí na esquerda, não te mexe mais!" e ele até engatilhou a espingarda. Ih, fudeu.
Depois de todas as burocracias de uma abordagem policial, revira dali, explica de lá (vai explicar lightdrawing pra ele, vai...), o policial (que nos chamava de "elemento"; vou começar a chamar o elemento policial de elemento policial agora) ainda queria saber da minha lanterna de led. Quase que falo do DealExtreme pra ele. "É lanterna de LED." Ainda soletrei, "éle, ê, dê".
Aí que eles disseram que, quando fôssemos sair pra fotografar de noite, que ligássemos pra delegacia e que avisássemos em que lugar estaríamos. Tá bom.
Desse jeito vou é ficar em casa mesmo. Obrigado à população local, que está sempre de prontidão pra chamar a polícia quando um carro estranho estaciona na frente de casa. Que falasse com a gente ao invés de mandar a polícia. Agora eu tenho medo de fazer uma das poucas coisas que gostava de fazer aqui no vale, e vou restringir a fotografia noturna para meu jardim.

Essa aqui abaixo é uma das poucas dessa memorável noite:

alexander huber

A revista alemã Der Spiegel entrevistou o escalador Alexander Huber (41 anos de idade), resultando em uma bela reportagem. Ele é praticante de free solo, um estilo de escalada onde não se usa corda ou qualquer outra proteção. Traduzi alguns trechos interessantes e coloco a tradução aqui: (extraído de Der Spiegel)

Spiegel: Há fotos de ti a centenas de metros de altura em meio a uma falésia gigante, íngreme e lisa. Não há segurança, nem corda, que pudessem evitar uma queda. O que passa na tua cabeça?
Huber: De preferência nada. Todos pensamentos, todos medos, as preocupações são para os dias anteriores à escalada. Quando eu escalo, reduzo meu mundo aos poucos centímetros quadrados da próxima agarra.

Spiegel: Como se supera o medo?
Huber: Aí que entra a experiência. Eu só comecei com free solos aos 30 anos de idade. Com a idade, a força mental e a técnica ficam mais fortes. Eu comecei com paredes de 6 metros de altura sem corda, e então fui subindo de nível e em paredes maiores. Hoje eu sei, quais movimentos na parede são perigosos e quais não são. A preparação é meticulosa. Cada parede que quero escalar em free solo, eu conheço previamente como se eu estivesse entrevistando um futuro colega de apartamento: escalo com um parceiro e com corda, até que eu esteja convencido de que tenho controle total. Isso treina minha capacidade de auto-conhecer meu nível. Ao fim do processo, sei quão difícil é a tarefa e o quanto eu cresci com ela.

Spiegel: Tu és viciado.
Huber: Um pouco.

Spiegel: Quanto tempo ainda poderás escalar em free solo?
Huber: Depende da força mental, e essa não decai tão rápido como a força física. Eu tenho o sonho de trazer escalada em free solo para lugares em que ninguém ainda tentou isso. Isso deve ser nas grandes paredes das grandes montanhas desse mundo.

Spiegel: No outono, vais ser pai. Consideras parar com a escalada de alto risco em free solo depois do nascimento do filho?
Huber: Como assim? Eu amo a vida. Essa motivação para mim é muito grande. Eu não preciso pensar que, devido ao meu filho, quero continuar vivendo, pois isso eu quero de qualquer maneira.

 
Crédito das fotos: Huberbuam.de

dia do cão

Dia 9: de Punta Ballena a Piriápolis, 52km
O dia começou muito bem. Em Punta Ballena, no camping, tomamos café e brincamos com os cachorros bem comportados, que não entravam na cabana, por mais que chamássemos. Ficavam ali fora fazendo cara de "vem brincar comigo".

Fomos primeiro conhecer a Casapueblo. Lugar muito bonito, e bastane upscale mesmo... só mansão. Deve ser uns metros quadrados bem caros do país, com empreendimentos luxuosos saindo por todo lado. Nós constrastávamos bastante com os brasileiros que chegavam ali de Audi, Mercedes ou de taxi desde Punta del Este.
Casa Pueblo: arquitetura controversa... nem um pouco do meu gosto.

Paramos num posto pra tomar um café melhorzinho e seguimos estrada, pela Ruta Interbalnearia: entre Punta del Este e Montevideo, a estrada é mais habitada, não íamos ficar tão isolados pelo resto da viagem.

Até que, perto da entrada de Piriápolis, começa a chover. Colocamos os sacos em toda bagagem pra não molhar nada e seguimos, entrando em Piriápolis, onde já planejávamos dormir, porque seguir viagem com chuva gelada é chato... Nos informamos sobre campings e restaurantes no office de turismo e ficamos mais de meia hora, na chuva, procurando um restaurante com uma comida legal a um preço bom. Mal recebidos em alguns restaurantes (que rapidinho perdiam clientes), acabamos comendo bem: um pollo gigantesco, reforçando a proteína escassa da dieta dos últimos dias.

Aí começa a novela do camping...  Chovendo forte, ninguém queria montar a barraca e molhar tudo. Depois de muito hablar, hablar e hablar, ficou claro que podíamos ocupar o telhado da churrasqueira. Um grande achado pra se manter seco. Saímos na chuva, de novo, na noite, pra tomar um bom café.
O super camping na chuva:
E assim se dormiu, a chuva diminuindo, e a promessa de talvez abrir o tempo no dia seguinte...